quinta-feira, 17 de maio de 2012

Uma boa notícia

Enfim, leio uma boa notícia. Ela está nesse link aqui. E o que ela tem de importante? O simples fato de estar bem escrita. Sóbria, com as devidas citações, com a devida cautela e com o cuidado certo na hora de mostrar uma informação.

Sei que vocês, meus três leitores(as), podem estar meio decepcionados(as), afinal de contas, a notícia é bem científica... mas tão científica a ponto de ser quase chata. Mas não é isso ciência? Um porfiar infindável de pequeninos passos que abrem novas e intrigantes possibilidades? Da minha parte, acho a descoberta fascinante! Confesso, não li o artigo original, mas o farei e posso colocar uma atualização posterior por aqui. Mas não importa. Vivo criticando os meios de comunicação pela péssima forma como eles mostram a ciência. Mas aqui eles mandaram bem.

Mas a ciência deve ser chata? De jeito nenhum. Pelo menos eu não acho. Também não acho que esse fascínio que eu sinto deva ser algo disseminado. Daí o pouco ibope das notícias científicas. Daí o fato de forçarem a barra pra qualquer uma delas seja bombástica - geralmente pelos meios menos honestos.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Por que estudar Ciência - Parte 2

Depois de mostrar descalabros, perguntas aparecem. O que fazer pra melhorar, evitar, superar? Simples, educar. Fácil? Nem a pau. Mas alguns dados recentes mostram isso com uma clareza absurda e inequívoca.

Primeiro, os alunos estão "aprisionados" ao longo das séries, principalmente no ensino fundamental (pode ser lido aqui). Como eles conseguem chegar até a faculdade é um mistério , mas chegam a duras penas e incham um sistema que ainda está longe de estar saturado, e apresenta potencial de crescimento por um bom tempo. Não discutiremos os resultados do processo, mas, pra quem acompanha o mercado, está lendo o tempo todo que estão sobrando vagas para vagas de nível superior... isso mesmo, sobrando! Não é possível que a multidão de gente sendo formada nesse brasilzãodemeudeus não consiga dar conta do recado. Pois não consegue. Agências de empregos estão com vagas ociosas, implorando por gente, e a salários altos.

Explicações existem aos montes. Mas, depois de tanta coisa, um fato simples, simplérrimo, mostra que o buraco é mais embaixo. E bem maior. Além das taxas de analfabetismo funcional e conhecimento matemático sofrível, eis um dado que sempre gosto de usar nas minhas aulas. O brasileiro lê muito pouco. E o pouco que lê é aquela maravilha. Leia aqui e diga se não é altamente elucidativo. Eu estou certo de que ler mais é um passo importante pra diminuição da ignorância, mas não se lê mais se não se consegue ler. E corremos atrás do rabo. Em tempo, não acho que todas devam ser doutores. Mas deveriam ao menos conseguir ler o jornal sem gaguejar, e, portanto, serem capazes de minimamente criticar coisas do seu cotidiano e interesse. Política, por exemplo.

A série não acaba aqui. Aliás, o blog também é dedicado a essa questão: pra que ciência? 

Por que estudar Ciência - Adendo

Continuando a série, temos uma notícia simples, mas terrivelmente esclarecedora. Ela mostra o que a ignorância e o obscurantismo podem fazer contra cada um de nós e complicando coisas que poderiam ser fáceis de decidir. E é quase uma piada.

Descobriram que a populaça está certa de que o mundo vai acabar em breve (leia aqui). E ninguém me avisou?!? Que sacanagem... Mas fato é que essa percepção é derivada de nada mais que a ignorância. Filmes, lendas, profecias... oras, convenhamos, a mídia está na dela em fazer propaganda sobre o Fim do Mundo. Ela vende mais com isso. Nem precisa falar do cinema. Os filmes sobre esse assunto sempre são muito legais. Mas muita gente (segundo essa pesquisa) não entende que isso é ficção. Algum problema? Não, cada um com suas coisas. Até que essas coisas definam decisões importantes.

O grande problema é que a decisão mais importante não está sendo tomada. Educar. 

E isso é o assunto do próximo post.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Por que estudar ciência - Parte 1

É uma pergunta muito comum e convencional: por que estudar ciência? Resposta simples e direta: pra não ser enganado. Mais que isso é reserva de mercado. Não há nada de incrível ou mais nobre em ciência. Ela é conhecimento humano, mais uma das formas de conhecimento humano. O problema é que, mesmo aqueles que são grande detratores da ciência muitas vezes não se dão conta de que gozam de uma vida muito melhor que a de seus antepassados justamente pelo avanço da ciência.

Pois é, mas se não é esse extremo, é o outro: a ciência como um elixir universal, uma panacéia, uma embromada de indecisões, um infindável ciclo de idas e vindas. Hoje pode tomar café, amanhã não pode. Hoje pode comer chocolate, amanhã não pode. Mas isso é mesmo um problema da ciência? Estou certo que não. Daí a postagem de hoje, onde eu mostro como a forma de divulgação é um completo desastre, isso quando não deixa a clara impressão de ser propositalmente mal-feito. Vejamos esse espectro adiante.

O primeiro exemplo é tipicamente um artigo mal-escrito, feito de forma simplificada, que não explica nada, não mostra o caso e joga um monte de palavras complicadas que supostamente dariam o tom "científico" pro artigo. Leia aqui e julgue. Ponto um: é evidente que fazer atividade física reduz índice de massa corpórea. Aliás, IMC é uma grande bobagem. Faz sentido em contextos limitadíssimos, deve ser usado em conjunto com outros dados, e, principalmente, não pode ser tomado como valor absoluto. Ponto dois: comer chocolate não é problema algum. Não há nada de errado com o chocolate. Há de errado com a cabeça de quem come quando come um quilo de uma vez só. Aliás, comer um quilo de qualquer coisa não vai ser legal. Agora, veja como o título é sensacionalista e diga se esse título é condizente com o que está no artigo original? Jamais. Pelo menos nesse artigo é possível encontrar o artigo original. Vale seu tempo!

O segundo exemplo é tipicamente o dado com limitadíssimo significado estatístico, mas que pode ser esticado e reinterpretado ao gosto e sabor do escritor. Leia aqui. Veja que o próprio escritor diz uma coisa diferente daquela que está no título. Além disso, eles sempre fazem questão de dizer que "diz o estudo". Não, o estudo não diz aquilo que o jornalista quer que diga. Ele está dizendo aquilo que ele entendeu (mal) do artigo. Convenhamos que o artigo mostra uma correlação estatística meio capenga, e nem tem lá essa qualidade, e mesmo assim, o jornalista consegue piorar. Tanto pior pra quem acreditar que ficar na academia do second life pode ajudá-lo a perder peso, mesmo comendo tranqueiras sentado na frente de um PC!!!

Por fim, o que motivou esse post. É uma coisa horrorosa! Os autores não falam nada daquilo no título. Na verdade, isso é um argumento conhecido na filosofia como o "Scarecrow Argument", ou seja, argumento espantalho: toma-se um argumento válido, simplifique-o ao ridículo e depois ataque a simplificação. Leia aqui e confira. O artigo fala claramente do problemas de se consumir carne industrializada, não fala nada de carne fresca; o artigo não fala em quantidades, nem o original e nem a notícia; é um estudo populacional que mostra uma possível correlação, no entanto, não leva em consideração um monte de outros fatores; também mostra que a culpa não é da carne, mas dos aditivos. Oras, então não se consumam os aditivos, que se troque os aditivos, mas a carne?!?! Parei.

Resumo da brincadeira: pra quem serve esses artigos? Para os não letrados em ciências. O mundo não precisa ser cientista. Mas precisa saber se defender desse tipo de bobagem. Me espanta que haja tanta credulidade quanto vejo para com esses artigos: isso é levado ao pé da letra, consumido, forma opinião e até políticas! Mas me horroriza ver colegas cientistas não se levantarem contra isso, e me enoja ver que muitos deles também são sensíveis a esse tipo de bobagem. Só posso pensar em incompetência.

Mas esse é o assunto do próximo post.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Pensando em Modelo

Há uns dias apareceu uma notícia um tanto engraçada na mídia. Moscas macho também afogam as mágoas no álcool quando sofrem rejeição. Pode ser lido nesse link aqui. Piadinhas à parte, mas, no final, o pessoal eleva o tom da crítica e acaba atacando a ciência, como é de costume.

Longe de mim querer defender a ciência (ela já está bem crescida pra fazer isso sozinha), mas temos que ser justos, e, por que não, mostrar o que há por trás dessa notícia.

Em primeiro lugar, não vamos nos importar com questões de método - se o sujeito fez um bom experimento, se a resposta é essa mesma, se os dados são coerentes. Em segundo lugar, vou ignorar a ignorância - o pessoal que faz comentários cretinos demais pra serem comentados. Em terceiro lugar, pra chegarmos ao miolo da questão, vou partir de uma pergunta simples: mas por que raios, moscas?

A mosca da fruta é o que chamamos em ciência de "modelo". O modelo não se propõe a reproduzir fenômenos de forma idêntica à sua ocorrência natural; mas sim, tenta reproduzir algo similar num sistema mais simples, ou ainda, num sistema mais controlável. Não é possível reproduzir fielmente o Big Bang num laboratório. Isso é impossível. Tanto por não se saber exatamente a natureza do fenômeno que o gerou (físicos e químicos, desculpem minha ignorância se esse dado já for claro), como por não haver equipamentos e técnicas pra se fazer isso. Da mesma forma, não é possível se reproduzir fielmente em laboratório a origem da vida - no experimento de Urey-Miller, as condições podem ser parecidas, tudo pode ser muito similar, mas sempre será baseado em dados químicos, derivados de dados geológicos, derivado de dados paleontológicos, numa cadeia que sabidamente contém (e conterá) erros. Mas o experimento faz uma proposta coerente, com base nos conhecimentos disponíveis e, mesmo muito criticável em muitos aspectos, propiciou enorme avanço no conhecimento científico sobre o que é vida, e como ela pode se formar.

Pois bem, então por que fazer experimentos se sabemos que haverá erros neles? Pra que basear conclusões em sistemas e assunções que sabidamente estão incompletos ou carregam imprecisões? 

Simples: por que é a melhor forma que temos para obter as explicações de forma coerente, a mais simples dentro das possibilidades tecnológicas, e que vai permitir que novos dados sejam descobertos sobre cada assunto complexo: tipicamente aquele com o qual a ciência se depara.

O modelo se presta a isso: criar um sistema que de alguma forma seja comparável com o natural, que possa ser manipulado, que dê boa noção sobre o comportamento do fenômeno, mas jamais será o fenômeno em si. E o bom cientista sabe disso: que modelos são representações incompletas, reduzidas, simplificadas, mas que, de alguma forma, compartilham similaridades suficientes com o sistema real a ponto de se poder usá-lo para fazer previsões úteis.

Aí chegamos ao ponto. Explicar. Muitas formas de conhecimento humano conseguem dar explicações. Mas a maioria delas, no geral, não conseguem fazer previsões baseadas em dados coerentes e que possam ser revistos. Daí a importância dos experimentos em modelos. Eles dão excelentes indicações do melhor caminho a ser trilhado na pesquisa. Por isso, nem podemos abrir mão dos modelos animais - no caso das ciências biológicas e médicas - e nem podemos deixar de criar modelos para o estudo de sistemas complexos.

Se somos parecidos com moscas? Evidentemente não. Mas talvez, sejamos muito mais parecidos do que gostaríamos. Como professor, garanto: já vi moscas muito inteligentes na vida!!!

terça-feira, 27 de março de 2012

Da serie, "Redescobrindo a Roda"

Estudar é um saco. Ir pra escola, faculdade, ou seja lá o que for, na maior parte do tempo é uma obrigação. Não há quem diga o contrário em algum momento da vida. Não há quem não tenha sentido o contrário, mesmo gostando muito. Eu não posso me queixar: fiz uma faculdade divertidíssima. Aprendi muita coisa legal. Mas passei muita raiva. Tive muita aula ruim, mesmo com professores absurdamente bem-intencionados. Alguém aí tem algo diferente pra dizer? Pois é... acho que não. Queixas não faltam.

O problema é que a psicologia, sobretudo alguns bons autores da pedagogia, conseguiram mostrar que não precisa ser assim. Pode ser divertido, estimulante, e, pasmem, nada sacrificado. Isso é o que um pessoal dos EUA mostraram em pesquisas recentes, que pode ser conferido nesse link aqui. Estudar é um saco, ir pra escola, ainda mais. Aprender não. A situação da escola é chata, a obrigação de ter que fazer certas coisas sem o menor estímulo; ou pior, quando professores ruins conseguem estragar nosso ânimo com aulas ruins. Por outro lado, aprender é algo interessante. E faz todo o sentido. 

O cérebro não consegue ficar sem informações novas. Isso é ainda mais verdade no final da infância e início da adolescência. Tudo aborrece, por que não há entrada suficiente de informação pra "animar" o cérebro. O que fazer, então? Oras, dê algo pra ele mastigar. Coloque os alunos pra descobrirem coisas novas. Faça-os ir procurar, deixe pistas e rastros e compartilhe com seus alunos a experiência da descoberta.

Opa... tem coisa nisso aí... tem sim. Isso já foi dito há mais de cinquenta anos, isso mesmo CINQUENTA anos!!! Um psicólogo americano chamado Jerome Bruner conseguiu fazer crianças em idade pré-escolar descobrirem sozinhas as operações fundamentais da matemática. Ele criou um sistema de atividades em que as crianças faziam brincadeiras com bolinhas coloridas e iam concluindo a cada passo qual operação havia sido feita. Depois essas crianças tiveram desempenho melhor em matemática que outras que aprendiam do jeito tradicional.

Moral da história: os americanos agora conseguiram encontrar alguns detalhes do que o Bruner encontrou lá atrás. Mas não inventaram a roda. Certamente incorporaram pesquisa de outros campos da psicologia, e estão expandindo o que o velhinho mostrou lá atrás. Não vou encompridar o assunto, mas junto com outro sujeito chamado David Ausubel, eles fizeram um barulho danado nos anos 50 e 60, quando os EUA se deram conta de que era necessário melhorar a educação no país, pra poder competir com a ex-União Soviética. E alguém acha que isso foi usado aqui no Brasil? Claro que não. E quantos dos nossos professores fazem idéia de quem foram esses caras, o que fizeram e como aplicar aquilo que eles mostraram há tanto tempo? Deixa pra lá...

segunda-feira, 12 de março de 2012

Arbítrio e espinhos

Se já não é fácil pensar na ética tico-tico do cotidiano, que dirá levá-la a sério como uma disciplina ou, pior ainda, quando envolve assuntos cujas decisões terão ramificações, implicações e consequências de grande impacto social, e não mais pessoal ou no micro-cosmo do indivíduo. Pois eis nessas duas notícias aqui e aqui, encrenca de grande porte: suicídio assistido e eutanásia.

Juro que não quero nem passar perto das implicações legais da coisa - não tenho calibre pra tanto - e menos perto ainda das implicações religiosas - não tenho mais paciência pra isso. Mas o fato é que sobra aqui um pedaço não menos relevante da conversa que é o fato do indivíduo poder exercer o seu arbítrio. Ele deveria poder, não? Ele deveria poder escolher não mais viver, fazer uma grande festa, se despedir dos amigos e das pessoas amadas, sair de fininho e tomar uma injeção letal. Ou ainda, como no caso do inglês da primeira matéria, poder pedir pra alguém resolver um problema que ele não tem maneira de fazer. Pra pensar um pouco na questão, sugiro um bom filme chamado Mar Adentro, com atuação magistral do protagonista, um marinheiro que ficou tetraplégico e quer ter o direito de acabar com a própria vida.

O miolo da questão pra mim é: qual então seria o limite do arbítrio sobre si? Liberdade é se fazer tudo o que lhe é permitido numa sociedade; independência é ter coragem pra isso; autonomia é ter pernas pra isso. Mas, e quando se trata de agir sobre si mesmo? Nesse caso, é o arbítrio sobre o próprio corpo. Pode-se fazer uma tatuagem, colocar piercings,  fazer lipoesculturas, silicone, ser anoréxico, beber urina... mas não se pode dar cabo da própria existência? Ok, mas nesses casos, o indivíduo não tem como praticar o ato, ou então quer fazê-lo de forma menos traumática para si e para os seus, por que não se pode contratar um profissional especializado e legalmente outorgado pelo Governo pra fazer o serviço? 

Espinhoso, muito espinhoso... mas penso que esse direito sobre si deveria existir de forma inalienável, na forma de Liberdade para tal.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Formalizando impressões

Hoje saiu uma notícia que não é novidade pra nenhum professor de nível superior: os alunos não sabem matemática. Quer dizer, segundo os dados (nesse link aqui), 60% dos alunos. Do meu ponto de vista, esse é um dado até modesto e subestimado.

Aliás, os alunos não sabem um monte de coisas quando saem do ensino médio, mas matemática é crítico, pois envolve tanto o domínio das lógicas, como o domínio de uma linguagem simbólica específica. Isso é fundamental para o aprendizado de ciências, por exemplo. 

Mas o dado não é novo. Há uns bons anos (décadas, talvez), um pessoal da USP mostrou que o aluno que passava na FUVEST era aquele que ia bem em Matemática e Língua Portuguesa, e que o desempenho nas outras matérias não era determinante. Ora, isso faz todo sentido. Se o sujeito sabe matemática, então física e química também estão sob controle, já que envolvem linguagens simbólicas específicas e lógica; e se o sujeito sabe língua portuguesa, então ele consegue entender tudo de geografia, história e redação. 

Resumo da brincadeira: a bolha que veio surgindo na degradação do ensino fundamental está estourando no ensino superior. E isso não é de agora. Onde se vai parar? Sei que verei o resultado disso... aliás, já vejo.